2009/11/22

Ali

Ali, longe
no meio do mar.

Não há esperança, nem ilhas, nem sonhos.
Só água, salgada.
Imensa.

2009/11/19

Caminhos

I
Sempre disse que o pior de mim é a indiferença. Não é a fúria, nem a raiva, nem a fome, nem o desespero, não é nada disso. É a indiferença que vem, chega, toma o seu lugar e torna tudo num terreno seco e sem vida.

II
Faltam-me as forças para dizer: pára.

III
Faltam-me as forças para dizer: cuidado.

IV
Faltam-me as forças para dizer: atenção.

V
Faltam-me as forças para olhar em volta, procuras nas migalhas a forma do pão. E admiro quando digo que perco tudo. Que estou a perder tudo. Que nada mais resta em mim que não ruínas. Lugares visitados e revisitados. Lugares onde mais não sou que esse cruzamento de caminhos onde um dia procurei chegar. Fecho os olhos e faltam-me as forças.

2009/11/17

Amadores

2009/11/16

Fim...

... do conto.

Desterro

Da minha avó lembro-me só da lápide que está no cemitério e onde alguém gravou por debaixo do seu nome: Aqui jaz a mulher que morreu por amor. De pouco me lembro mais. Só das histórias que me contaram. Da memória em família de pouco se fala. Há uma história dita em surdina que não conta porque morreu ela. Apenas a lápide diz o que lhe aconteceu. Restam as memórias. Aquelas que falam do amor vivido. Sofrido. Dos tempos de uma guerra que como qualquer outra foi, uma guerra. Da minha avó tenho só essa mensagem: Aqui jaz a mulher que morreu por amor.

Livre

Nunca mais me digas o teu nome. Não o quero em mim. Quero-o vivo, como te queria a ti. Nunca mais, Pedro. Nem o teu nome, nem a tua roupa, nem aquela forma que tinhas de chegar que era só tua. Nunca mais me digas o teu nome, nem ninguém me diga o teu nome, nem eu pense ou suspire o teu nome. Nunca mais. Agora que não estás. Agora que não ficaste. Agora que partiste sem me avisar. Agora que estou só e em mim só existe a imensa e revertida fúria sobre o teu nome, não me digas, não me digam mais nada. Livre, eu. Eu que nunca o quis ser. Que nunca tentei essa liberdade. Que nunca desejei ser livre de ti, eu, hoje estou livre. Mas não me digas o teu nome. Não me digas pois sei que desse teu nome nunca serei solta. Porque não o quero. Porque nunca o desejarei. Porque tu és em mim, o teu nome e o meu.

Demora

Matilde olha as suas mãos como outrora o fizera. Não são as mesmas. São suas, mas não o são. Um homem a que chama seu cava a terra junto à cerca. Ela, observa. Há momentos em que não o reconhece. Em que não tem qualquer memória de quem ele é. De quem ele foi. Matilde continuará assim os seus dias até à sua morte. Ele morrerá depois dela, estranhamente. Ela não o sabe. Não o poderia saber. Mas será o que acontecerá. Ela morrerá numa tarde de chuva e frio fechada na casa que cuidara anos e anos a fio. Sozinha, acompanhada. Matilde pedirá ao padre para confessar um pecado. Chamar-lhe-á um pecado da carne. Da tarde em que, entre poemas e histórias beijou e deu o seu corpo ao prazer a quem não era o seu homem, como aquele que, agora ali perto cavava a terra. Matilde olhava de novo as suas mãos. Reparava nos dedos que tinham-se tornado mais finos. Neles habitavam agora palavras. Milhares. Nos próximos anos todas elas se voltariam a perder. Todas menos aquelas que um dia lera numas páginas de um livro que já não recordava o nome…

Eras novo ainda

procuro-te no meio dos papéis escritos
atirados para o fundo do armário de vidrinhos
comias uvas no meio da página

a seguir era como se fosse noite
havia olhares que se cruzavam corpos
deambulações pela praia
era noite e alguém se aproximava

eu estava passeando os dedos
pelas nódoas frescas do vinho sobre a mesa o caderno
onde de quando em quando rabiscava um rosto
e listas de nomes que não queria esquecer

paguei o pão o vinho o queijo
levantei-me
tu cortaste-me a fuga vagarosamente preparada
pediste-me um cigarro

na outra página estávamos rindo
estendidos no pobre embarcadouro de madeira
planeávamos atravessar a noite mágica do rio

a página seguinte está em branco
mas lembro-me que te agarrei a mão e disse
todos os cigarros do mundo são para ti
Al Berto

Fim...

... do segundo capítulo.

2009/11/12

Ninguém

Já ninguém morre por amor. Há na cobardia de o não fazer uma mistura de medo e e egoísmo. Um medo de verdadeiramente sentir. Um egoísmo de verdadeiramente viver.

Segredos

Há uma coisa que não me levas ao morrer. O movimento que ensinaste ao meu corpo. Aos meus pensamentos.

Severo

Há nas minhas memórias, imagens a mais, das tuas mãos.

2009/11/09

Silêncios

E no fundo, na memória
Só esse som, terrível, inquietante.
Esse som da casa e do quarto
Do soalho de madeira
Da velha arca fechada
Da janela que não se encerra
Da voz calada sobre a cama.
E ao fechar a porta
O perfeito som do silêncio.