2009/07/13

Conseguir

O som das cordas
o inquietante som
das cordas.

Em lado nenhum
estão seguros
os pensamentos.

Elevo o desejo
a vontade
a força
a esperança.

Temo o dia de amanhã
onde as cordas
perdem a resistência
e nada mais existe
para além da força
das mãos em sangue
que seguram a vida
reservando
cada instante
para um dia
previsto
marcado
fechado
num só segundo
talvez
só talvez
amanhã.

Presença

I
Sabes o que imagino? Mãos que não são minhas. Braços que não são meus.

II
No lugar da pele, a ausência de tudo.

III
O vazio. Só o gesto repetido que me devora. Admiro-te no lado vazio da casa. Não chegas. Habita o silêncio da tua sensualidade que encontro sempre em cada momento que te revejo. Ainda me encantas mesmo quando estás ausente.

IV
Se te pudesse contar o quanto te perco a cada segundo em que nada dizes... Quando nos perdemos a cada segundo de final das palavras que não nascem. O mais belo entre duas pessoas é sempre a possibilidade de estar, simplesmente, em silêncio. Mas para esse silêncio poder existir sem dor requer a presença. A distância não está no silêncio. Está onde não está nada e só existe vazio. Sabes o que imagino? Lábios que não são os meus...

2009/07/12

Imagino

... de José Malhoa.

Reserva

Não digas nada
grita.

Grita com o teu corpo
atira-te.

Cala a fome
com a força
do abraço.

Não digas nada
beija.

Revolta-te, foge daí.
As mãos esperam-te!

Não digas mais nada
nada.
Cala a palavra.
Fala com os pés.
Caminha.

Regresso

Há nos espaços por onde passo, uma ausência. Faltam umas mãos. Faltam uns braços. Falta uma voz. Há no tempo em que estou, um desespero por esse tempo não ser só meu. Ser um tempo que ainda não existe. Que é cercado de muralhas. De resistências e de casas que não estão habitadas. Crescem muralhas em torno das casas. Forma-se uma aldeia que não tem nome nem terra. É um cerco feito em qualquer um de nós. Um isolamento da vida. Uma mentira. Uma inquietação que não se consegue resolver. E seguem os passos, como numa lenta e vagarosa procissão. Passos que se esperam presentes no dia a dia, lado a lado, perpendicularmente. E há uma espera. Desgasta. Vai criando ruínas. Aqui e ali. Vai dilacerando a alma. Ferindo o uso das coisas, das palavras, dos lugares. Vai formando memórias e as memórias vão morrendo em cantos escuros a que um dia regressaremos cansados e desgastados da luta que nos derrotou. E no entanto, lá de cima do monte onde estou e de onde observo todo o espaço à minha volta, vejo estradas. Vejo caminhos. Sei que um deles me levará, ali, à casa habitada, onde só existe o som da tua voz.

2009/06/29

Pausa

Durante um período de tempo que não sei definir, preciso não voltar a escrever aqui...

Bailado

... Pedro e Inês.

Tarde

Retrato: Se

Imóvel, no chão do quarto, não estou para o mundo.

Durante

Retrato: Faltam

Faltam
As forças
As lágrimas
As horas
As linhas
As moedas
As mãos
Os silêncios
Os instantes
Os segredos
Os caminhos
Os olhares
Os dias.
Falta
A vida.

2009/06/28

Imaginação

... Alice no País das Maravilhas.

Lanterna

Retrato: Transparente

A sala, grande demais. Livros e mais livros cercam-me. As palavras voam pelo pensamento como lâminas. Releio. Inquietantemente, releio poemas, livros, cartas e textos espalhados pelas paredes. A vontade de gritar ganha força. De dizer o que a alma guarda. Dizer o que ninguém espera. Fazer o que só o mundo pode entender como algo completamente distante. Nada mais existe para além dessa racionalidade que não desejo, desse pensamento fixo na certeza de não saber o caminho, na vontade de amar, de falar de tudo o que não pode ser dito porque ninguém mais entende. E lá fora está vento. Aquele vento suave que move o mundo sem o mover. Admiro todo o espaço que me afasta da realidade onde estou. Fecho os olhos. Adormeço. O tempo passa mais depressa enquanto durmo. Só isso. Mais depressa. Esperando amanhã, depois de amanhã, daqui a um ano, daqui a dez anos, daqui a uma hora…

Curva

Retrato: Pele

Estás nua. Não. Não estás nua. Estás vestida. Eu imagino-te nua. O corpo sobre o meu. As mãos presas, envoltas nas minhas. O corpo une-se. Abro os olhos e vejo-te. Fecho os olhos e sinto-te. As mãos soltam-se. Imparáveis percorrem todos os recantos da tua pele. Descobrindo. Procurando. Guiadas pela vontade que as tuas apoiam. Cercadas pelas tuas que mostram caminhos, sensações, movimentos desconhecidos. Fecho os olhos. Sentes-me. Sentes-me chegar onde guardas o que desejas, secreto. A mão segura o mundo no ventre que se desnuda. Estás nua. Não. Não estás nua. O teu corpo arqueia-se. Os teus cabelos soltam-se. Lisos, perfeitos. A luz não aparece. Abres os olhos e encontras-me. Fechas os olhos e vens até mim. Não me falas de nada. Não dizes nada. Falas-me só em sons que não entendo. Repito o que dizes sem saber o que digo. Fecho as mãos num lugar que só tu conheces. Volta a abrir as mãos, uma primeiro, a outra depois. Sentes os dedos que procuram lugares que conhecem. Abres os olhos. Sou eu. Abro os olhos. És tu.

2009/06/27

Assim

... estou.

Diz

Retrato: Novo

Não me digas mais nada
Tudo o que disseres
É pouco.

Não há gestos
Parados no tempo.
Nem desejos, anseios
Ou revelações.

Há só hoje, agora,
Este instante
Em que o mundo que habitamos
Está lá, onde só as flores
O vento nas árvores
As estrelas e a noite
Sabem onde fica…


Repete

Retrato: Gesto

Nunca, em lado nenhum, se repete. É um gesto. Uma forma qualquer que tem de se erguer. Uma força, um movimento de braços e de ancas. O corpo ergue-se, vertical, perfeito. As mãos tomam o apoio de qualquer coisa. O olhar fixa-se sobre todos os lugares. Percorre o espaço. Faz-se imenso, perfeito, inquietante. Entra e sabemos que entrou na sala alguém mais importante que o tempo. Alguém por quem se espera. Alguém por quem a vida esperou, a nossa vida, a vida inteira. Nada há que defina cada gesto ou cada pensamento. É um estar. Como um respirar de ar fresco. Como um copo de água num dia quente. Uma necessidade de saber que existe, que está, que está perto. Um urgente soluçar entre os instantes. Assim, surge a vida, em cada gesto, desejado.

2009/06/25

Sente

Sombra

Retrato: Vazio

- Não digas nada.
- Fico só aqui, neste canto tão vazio, a imaginar o beijo. A sentir a vida.

Luz

Retrato: Cela

- Não digas nada.
- Basta saber que hoje não vou estar perto de ti. Basta isso para o mundo acabar.


2009/06/24

Mulher

... de Vermeer.

Simplicidade

Retrato: Mensagem

I
Do vaso, oval, nascem flores
E pensamentos.

II
Do olhar, a janela
Observo o vale.

III
Ao meu lado, a vida
Perto de mim.

IV
Admiro a inquietude
Observo as palavras
Reservo a mensagem
Penso o sentimento
Fecho as mãos e sigo o caminho.


Sofrimento

Retrato: Quadro

- Não me digas nada que o silêncio já basta. Já basta para sentir que não há mais nada em lado nenhum. Que tudo é de um vazio inquietante. Que não há passado nem futuro. Que os olhos se fecham de tanto chorar. Que a ausência da voz, da luz, se torna insuportável. Estou cego. Sim, cego. Mesmo, literalmente. Não digas nada que este negro que me invade é revoltante. Não vejo nem sinto nada. O mundo desaparece a cada dia que passa. Vão desaparecendo os lugares. Vão desaparecendo a forma das coisas. E nada mais surge como visível. Apenas o peso inquietante do silêncio que se instalou e é sempre maior. A distância dos objectos emerge em todos os lugares. Uma distância que cresce. Aqui, no negro espaço que me cerca, nada existe para além do desenho a carvão de um rosto que um dia nasceu.